Airton Monte

Airton Monte

O cearense Airton Monte nasceu em Fortaleza em 1949 onde viveu até sua morte em 2012 por câncer. Filho de Airton Teixeira Monte e Valdeci Machado Monte.

Médico psiquiatra formado pela Universidade Federal do Ceará, cronista, poeta, letrista, etc, comentarista de rádio, redator de televisão, letrista, teatrólogo, é essencialmente poeta e contista.

Iniciou-se na revista O Saco, revista criada por ele, onde publicou contos. Um dos fundadores do Grupo Siriará de Literatura. Estreou, no gênero conto, com o volume O Grande Pânico (1979), seguido de Homem Não Chora (1981) e Alba Sangüínea (1983). Tem no prelo Os Bailarinos.

Participou de algumas antologias: Os Novos Poetas do Ceará III, Antologia da Nova Poesia Cearense, Verdeversos e 10 Contistas Cearenses. Tem também um livro de poemas.

Segundo a jornalista Eleuda de Carvalho:

SERVIÇO:

Moça com flor na boca - Crônicas de Airton Monte. Coleção Literatura no Vestibular, publicação CCV/UFC. À venda na livraria da UFC (na av. da Universidade, ao lado da Reitoria da UFC) e livrarias Livro Técnico. R$ 11,00.

TRECHO:

Quando quero me perder de vista, ando por minha cidade com olhos de turista. Torno-me assim um ilustre desconhecido caminhando por uma estranha Loura Desposada do Sol, que nem loura é, mas morena jambo feito Iracema.

Nessas raras ocasiões de distanciamento, não mais a chamo de Cidadezinha, mas Rainha do Ignoto, aquela que não conheço, a distante, a longínqua de mim e não é minha cidade de qualquer ponto de vista.

No centro, deserdados da infância, meninos cheirando cola, se anestesiando de tudo que os cerca e os isola de nós, cidadões comuns. Nos apartamentos classe média, meninas cheirando cocaína, herdeiros dourados do supérfluo.

E eu, transido de remorsos inúteis, cúmplice do descaso, bebendo pelos botecos pra esquecer desses garotos com cara de velho, cheios de ódio por tudo e por todos, inclusive de mim e de sua inútil revolta, suas transgressões inúteis.

Feito um Jonas suburbano, vou sendo lentamente engolido por essa baleia equatorial, atlântica. No entanto, sei que a cidade faminta, voraz, sabe sou meio indigesto e me regurgita e me devolve a mim, Odisseu urbano.

Enquanto fujo, lépido e fagueiro, desse encontro cara a cara com a cidade, sinto-me apenas um sonhador cansado com a utopia da fraternidade universal. De besta, creio ser ainda a alma de um homem do tamanho exato de seus sonhos, o que absolutamente não significa que sou um grande homem.